CONDIÇÕES HISTÓRICAS DO POVOAMENTONo
histórico da ocupação, visto na introdução deste trabalho, a Bahia foi
dividida em três Grandes Áreas. A Região de Irecê insere-se no que se
chamoude
“Semi-Árido”, cuja ocupação decorreu, ainda no século XVI, da
interiorização promovida pela Coroa portuguesa com o objetivo de abastecero
litoral – centro econômico e social da colônia – de produtos de
subsistênciae
carne bovina.
Entretanto, a despeito do povoamento relativamente antigo, essa porção do
território baiano permaneceu isolada do litoral e conseqüentemente comum
povoamento rarefeito até fins do século XIX. Dessa maneira, a ocupação
efetiva do hinterland baiano só ocorreu no final desse século com a
implantaçãoda
rede ferroviária que interligou o litoral e o interior.
Cartograma 04
Crescimento Demográfico da População Rural
por Município
Região Econômica Irecê - BA, 1980 - 2000
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Cartograma 01
Diversão Político - Administrativa
Região Econômica Irecê - BA
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A implantação do sistema
de navegação fluvial, através do Rio São Francisco,também ajudou o sistema de
comunicações no Submédio São Franciscoa estabelecer fluxos
migratórios e de mercadorias, inter e intra-regional, interligandoa região do semi-árido
baiano ao litoral. Dessa maneira, a cidadede Xique-Xique, com
localização geográfica estratégica, constituía-se, naquelemomento, no maior centro
urbano regional.O povoamento tardio da
Chapada Diamantina Setentrional, onde se localizaa Região de Irecê, ocorreu
a partir de 1840, com a descoberta de ouro naSerra de Assuruá, no atual
município de Gentio do Ouro. No final do séculoXIX uma estiagem
prolongada assolou o sertão da Bahia e contribuiu para opovoamento da Chapada de
Irecê, ao provocar deslocamentos de pessoasem busca de áreas menos
afetadas pelo fenômeno.A fertilidade dos solos e
a existência de um lençol aqüífero subterrâneo naChapada de Irecê resultou
em boas safras de milho, feijão e algodão, entreoutras, dando origem ao
nome da região e da cidade mais importante, Irecê(que, em tupi, significa
“água subterrânea”). A partir daí foram surgindo outrospovoados, a exemplo de
América Dourada, Rochedo (atual Ibititá), Canaranae Canal (atual João
Dourado).Posteriormente, uma nova
seca levou outros grupos de famílias a ocuparuma nova área, localizada
nas proximidades da Chapada de Irecê. Contudo,segundo estudo realizado
pela Fundação CPE (1994), a expansão do povoamentoe a multiplicação e
desenvolvimento de núcleos na região só ocorrerão,sobretudo, a partir da
década de 1920, transformando-se, a partir daí,em vilas e cidades.Contudo, mesmo com o
início de um povoamento mais sistemático e o estabelecimentode ligações ferroviárias e
fluviais, a Região de Irecê permaneceupraticamente isolada do
litoral e improdutiva até meados do século XX.Durante um período muito
extenso manteve-se restrita às atividades agrícolasde subsistência (feijão,
milho e mandioca) ou à pecuária bovina. Tratavase,assim, de um espaço
regional que, à semelhança do que ocorria na maioriadas demais regiões do
Estado, mantinha escassas relações com os circuitosprodutivos que, em última
instância, determinavam a dinâmica produtiva daBahia. Esse tipo de
inserção na economia estadual – marcado pelo isolamentoe pelo caráter
extremamente modesto de suas principais atividades –impôs à região,
evidentemente, condicionamentos muito específicos à suadinâmica demográfica,
sobretudo no que diz respeito à sua capacidade deatrair ou de expulsar
população, mas também ao limitar os ritmos de reproduçãodemográfica endógena
(resultantes do crescimento vegetativo).Os primeiros sinais de
rompimento com esse quadro só ocorreram no inícioda década de 40, quando
passou a ser registrado um incipiente processo demecanização da agricultura
no município de Irecê. Naquele momento, iniciativaspioneiras na cultura do
algodão – com alguma utilização de tratorese arados mecânicos –
despertou o governo estadual para a excelência dossolos agricultáveis desse
município. Em 1943, a Secretaria da Agricultura do
Estado enviou tratores (alugados por preços módicos) para a região e abriu
linhas de crédito para a aquisição de outros implementos agrícolas
(DUARTE,
1963). Além da Secretaria da Agricultura, outros órgãos passaram a atuar
naquela área, como a Comissão do Vale do São Francisco (orientando
tecnicamente
os agricultores e, também, incentivando a mecanização agrícola) e
o Banco do Brasil, que, a partir de 1953, iniciou a concessão de crédito
para
os agricultores locais, através de sua Carteira Agrícola (CPE, 1994). Essas novas condições,
além de contribuir para a fixação dos nascidos na
área, deram início a um inusitado processo de atração de migrantes – que
começavam a chegar, atraídos pelas novas oportunidades que se abriam –,
revertendo em parte a histórica tendência da região em apresentar-se como
área predominantemente de emigração. No entanto, é no final da
década de 1960 e início dos anos 70 que a economia
da Região de Irecê passa a apresentar um efetivo movimento de expansão,
assentado, sobretudo, na cultura triconsorciada do feijão, do milho e da
mamona. Certamente, um conjunto de fatores favoráveis propiciou essa
rápida
emergência da área como produtora de grãos. Duas novas circunstâncias,
porém, parecem ter se sobreposto às demais: a primeira, diz respeito à
implantação, nessa época, de um sistema viário com capacidade de atender
eficazmente ao escoamento da produção agrícola regional; a segunda,
refere-
se às facilidades encontradas na obtenção de crédito agrícola, não apenas
farto, como também altamente subsidiado. A combinação desses dois
fatores possibilitou a viabilização de potencialidades
produtivas até então represadas. Conforme salientam diversos estudos
sobre a região, a boa qualidade de seu solo (sobretudo da fatia do
território
pertencente ao planalto cárstico) mantinha-se à margem da agricultura
comercial,
em virtude, principalmente, da precariedade – senão da absoluta
ausência – de uma rede viária capaz de tornar possível a integração
produtiva
da Região de Irecê com o resto do Estado ou do País. Por outro lado, a
fragilidade econômica dos agricultores locais (fruto, entre outras coisas,
do
próprio isolamento físico a que estavam submetidos) os impedia, nas
condições
normais de mercado, de ter acesso a crédito bancário, tornando inviável
um efetivo processo de expansão de seus negócios. Em resumo, a boa qualidade
do solo da Região de Irecê, associada a políticas
que, a um só tempo, desbloquearam física e financeiramente suas
potencialidades
agrícolas, tornaram possíveis movimentos expansivos, tanto da
economia quanto da população. No primeiro caso, fazendo da região, em
meados dos anos 80, a maior produtora de grãos do Estado e do Nordeste;
no segundo, mantendo o elevado ritmo de crescimento demográfico verificado
a partir da década de 1940.
Entretanto, nem sob o primeiro aspecto nem sob o segundo, a região pode
ser considerada um todo homogêneo, em que pese o fato de sua economiaestar assentada,
fundamentalmente, na cultura do feijão (e, em menor medida,
na do milho e da mamona) e de apresentar uma evolução demográfica
em que as semelhanças se sobrepõem às diferenças. Com efeito, os
municípios
situados à margem dessa configuração produtiva dominante apresentam
dinâmicas econômicas típicas de áreas estagnadas. De todo modo, importa
ressaltar que as transformações ocorridas no núcleo
dinâmico da economia regional influenciaram, em maior ou menor medida,
todo o contexto sociodemográfico da Região de Irecê. Tanto as altas taxas
de
crescimento demográfico observadas até a década de 1980 como o próprio
arrefecimento desse ritmo na década seguinte não podem ser corretamente
interpretados sem se considerar a influência decisiva dos movimentos
expansivos
ou regressivos da economia local, o que, certamente, não implica
negar a importância dos componentes demográficos endógenos no perfil da
população da região. Dessa forma, o Platô de
Irecê, que concentra a maior parte dos municípios
da região, mesmo com a escassez de chuvas, foi privilegiado com
investimentos
estatais e incentivos creditícios destinados à agricultura, transformando-
o num dos maiores centros produtores de feijão do Estado da Bahia
e do Nordeste. Já as áreas do Baixio de Irecê (Xique-Xique) e as demais
áreas da região, em que pese a abundância de água no Baixio e o fato de
possuírem os núcleos populacionais mais antigos, tiveram contra si a
inexistência de uma política agrícola mais agressiva, além de uma
estrutura
fundiária predominantemente concentrada, formada por grandes latifúndios. Tais aspectos negativos
dificultaram a fixação de núcleos nesse
espaço, fazendo com que o município de Xique-Xique perdesse parte da
polarização exercida na região. No município de Gentio do Ouro, por
causa do saturamento da exploração do ouro na Serra do Assuruá e,
posteriormente,
do cristal de rocha formaram-se correntes migratórias que se
deslocaram daí para a região do Platô, atraídas pela atividade agrícola
que
ali ganhava impulso. De todo modo, e aqui se
retoma a afirmação feita no início do parágrafo
precedente, importa ressaltar que ao primeiro período correspondeu um
quadro demográfico em que a influência do ambiente econômico se
manifestava
sobretudo através da pequena (ou nula) capacidade de atrair migrantes,
além do fato de a produção agrícola de então – basicamente familiar e de
subsistência – apresentar pequena tendência à expulsão da mão-de-obra
rural (salvo nos momentos de seca prolongada). Quanto ao segundo período,
a expansão e a modernização da atividade produtiva fizeram com que
os saldos migratórios apresentassem-se (presumivelmente, já que não
existem
cálculos precisos) sempre positivos, tanto pelo poder de atração que as
novas atividades impunham às populações vizinhas, como também pela
presença significativa de pequenas e médias propriedades no contexto
produtivo
local (quanto a esse último aspecto, ver WILKINSON, 1986). No que
se refere à atual fase de declínio da atividade produtiva, o que se
observa é
um rápido movimento de retração do crescimento demográfico, com algunsmunicípios apresentando
perda absoluta de população, sobretudo da população
que vive na zona rural.